Definições Sobre Regeneração Natural Assistida e Suas Práticas

O que é regeneração natural assistida?

De acordo com as definições dadas pela Aliança Global pela Regeneração Natural Assistida, a regeneração natural assistida (RNA) é um conjunto de práticas e intervenções concebidas para melhorar e acelerar a recuperação de ecossistemas naturais e manejados. Estas práticas podem ser aplicadas à restauração ecológica, à restauração de ecossistemas, à restauração de terrenos, à restauração de paisagens, à gestão florestal, à agrossilvicultura e à gestão sustentável de paisagens. É uma mistura de plantação ativa e restauração passiva: as pessoas podem intervir para remover barreiras que impedem a terra de se recuperar por si mesma (Chazdon et al., 2023).

 

Quais são as Práticas de Regeneração Natural Assistida que consideramos no Fundo Flora?

 

1. Proteção e combate contra incêndio

Componentes da prática

 

1.1.1. Aceiros

 

Descrição: Instalação de faixas de solo sem vegetação, criando barreiras para impedir a propagação de incêndios. Devem ser estabelecidas em áreas estratégicas para impedir o avanço do fogo em áreas sob regeneração. O aceiro deve ser instalado manualmente ou mecanicamente em uma faixa de 3 metros. Devem ser periodicamente mantidos para remover a vegetação constantemente.

Nível da prática: básica

 

1.1.2. Manejo do combustível vegetal

 

Descrição: O manejo de combustível vegetal consiste na remoção de materiais altamente inflamáveis, como folhas secas, galhos caídos e material morto acumulado no solo, que alimentam os incêndios. Esse manejo reduz a quantidade de combustível disponível para os incêndios, diminuindo sua intensidade e propagação. Essa prática é particularmente importante em áreas onde a regeneração está em estágio inicial e a vegetação é mais suscetível ao fogo. Essa ação pode ser realizada através da retirada manual de resíduos vegetais que podem propagar o fogo dentro da área. 

Nível da prática: básica

 

1.1.3. Brigadas de prevenção e combate à incendios

 

Descrição: As brigadas de incêndio são equipes locais treinadas para prevenir e combater incêndios florestais. Elas desempenham um papel essencial na prevenção de incêndios, na resposta rápida a focos e na minimização dos danos. O envolvimento da comunidade local é fundamental para o sucesso dessas brigadas, uma vez que moradores e trabalhadores locais têm um conhecimento detalhado da área. O treinamento deve incluir técnicas de combate a incêndios, técnicas de manejo integrado do fogo, queima prescrita e queima controlada, uso de equipamentos de segurança, primeiros socorros e criação de estratégias de prevenção.

Nível da prática: avançada

 

1.1.4. Brigadas comunitárias de prevenção e combate a incêndio

 

Descrição: Formação e atuação de brigadas locais compostas por membros da própria comunidade, especialmente em áreas de pequenos produtores rurais, territórios tradicionais e coletivos. As brigadas atuam na vigilância, prevenção e primeira resposta a incêndios, fortalecendo o conhecimento local e promovendo o protagonismo comunitário. O treinamento inclui combate direto, prevenção, comunicação de risco, uso de EPI e primeiros socorros.

Nível da prática: intermediária

 

1.1.5. Monitoramento contínuo e sistema de alerta

 

Descrição: O monitoramento contínuo de áreas propensas a incêndios é fundamental para a detecção precoce de focos de fogo. Um bom plano de monitoramento deve incluir patrulhas regulares e sistema de comunicação eficiente.

Nível da prática: intermediária

 

2. Controle de formigas

Componentes da prática

 

2.1. Levantamento de presença de formigas cortadeiras

 

Descrição: As principais formigas cortadeiras que podem ameaçar o desenvolvimento de plantas regenerantes são as do gênero Atta (saúvas) e Acromyrmex (quenquéns). A primeira ação importante para o seu controle é a identificação de ninhos ativos e localização de suas entradas, para um controle mais direcionado e eficiente. As colônias devem ser identificas quanto a espécie ou gênero, tamanho da colônia e localização na área.

Nível da prática: básica

 

2.2. Controle biológico

 

Descrição: O controle biológico envolve o uso de inimigos naturais das formigas cortadeiras, como fungos entomopatogênicos (Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana), que infectam e matam as formigas, ou parasitoides que atacam as rainhas das colônias. Essa prática pode ser mais sustentável e menos danosa ao meio ambiente. A depender do tamanho da área pode-se usar aplicadores manuais ou motorizados para pulverizar os esporos dos fungos diretamente nos olheiros ou nas trilhas das formigas.

Nível da prática: básica

 

2.3. Monitoramento de populações

 

Descrição: O monitoramento visa garantir que as práticas de controle estão sendo eficazes e impedindo o ressurgimento de formigas cortadeiras na área em regeneração. Envolve a observação e o registro contínuo da presença e densidade de colônias de formigas. O monitoramento também permite ajustar as técnicas de controle de acordo com a dinâmica da população de formigas e as condições ambientais da área em regeneração.

Nível da prática: intermediária

 

2.4. Implementação de barreiras físicas

 

Descrição: Barreiras físicas são colocadas ao redor de mudas e plantas jovens para impedir que as formigas cortadeiras as alcancem. Essas barreiras podem ser feitas de materiais que impedem a subida das formigas ou que as desviam das plantas. Normalmente são feitos de materiais que impedem o acesso das formigas à folhagem.

Nível da prática: intermediária

 

3.3. Manejo do gado

 

Componentes da prática

 

3.1. Impedir entrada de animais na área, através da instalação de cercas permanentes, móveis ou cercas vivas

 

Descrição: Limitar a quantidade de gado que pastoreia em uma determinada área, garantindo que a vegetação tenha a oportunidade de se regenerar. Isso pode ser feito por meio da implementação de pastoreio rotacional e pela realocação de animais para outras áreas de pastagem. Impedir o acesso de gado (e outros animais domésticos) à área em regeneração, garantindo que a vegetação tenha condições para se recuperar naturalmente. Isso pode ser feito por meio do isolamento da área com cercas e do redirecionamento dos animais para áreas de pastagem em uso. Quando aplicável, o pastoreio rotacional pode ser adotado fora da área em regeneração para reduzir pressão sobre o solo. O foco não é isolar a vegetação regenerante em si, mas sim condicionar ou excluir temporariamente as atividades que geram impacto. O isolamento pode ser total ou funcional, conforme o contexto territorial e os acordos de uso da terra.

Nível da prática: básica

 

3.2. Implementação de pastoreio rotacional

 

Descrição: Essa prática consiste em dividir a área de pastagem em parcelas menores e rotacionar o gado entre elas, permitindo que uma área descanse e a vegetação se regenere enquanto outra é utilizada para pastagem. Isso aumenta a produtividade do pasto e protege as áreas de regeneração.

Nível da prática: avançada

 

3.3. Instalação de cercas permanentes ou móveis

 

Descrição: As cercas móveis são utilizadas para controlar a área de pastoreio e proteger as áreas de regeneração em um sistema dinâmico. Ao permitir a fácil reconfiguração das áreas de pastagem, as cercas móveis facilitam o manejo sustentável e evitam a sobrecarga em áreas regeneradas.

Nível da prática: avançada

 

3.4. Monitoramento

 

Descrição: Acompanhamento periódico da densidade de animais, para assegurar que a densidade está adequada ao manejo rotacional. Monitoramento do reestabelecimento de plantas nativas, através da medição de cobertura do solo e análise da diversidade vegetal.

Nível da prática: básica

 

4. Isolamento da área

 

Componentes da prática

 

4.1. Instalação de cercas de proteção

 

Descrição: Delimitação das áreas em regeneração para evitar o acesso de animais de grande porte, como cavalos e gado. O isolamento da área impede o pisoteio e o consumo da vegetação em recuperação. As cercas podem ser de arame, construídas manualmente ou podem ser cercas vivas (nativas regionais sem potencial invasor), instaladas através do plantio de espécies vegetais espinhosas ao longo do limite da área em regeneração.

Nível da prática: intermediária

 

4.2. Manutenção periódica das cercas

 

Descrição: Ao longo do tempo, as cercas podem sofrer desgastes devido a intempéries, quedas de árvores ou atividades humanas e animais. A manutenção regular garante a integridade da barreira de isolamento.

Nível da prática: intermediária

 

4.3. Monitoramento

 

Descrição: O monitoramento é um componente fundamental na prática de isolamento da área. Ele garante que o isolamento esteja funcionando conforme planejado, permitindo o crescimento da vegetação e a regeneração natural, ao mesmo tempo que previne interferências externas, como a entrada de animais ou pessoas que possam prejudicar o processo.

Nível da prática: básica

 

5. Enriquecimento com espécies nativas

Componentes da prática

 

5.1. Identificação de espécies-chave

 

Descrição: Esta etapa envolve a seleção de espécies nativas que desempenham papéis ecológicos importantes, como melhorar a fertilidade do solo, fornecer alimentos ou abrigo para a fauna e promover a sucessão ecológica. A identificação é feita com base em estudos ecológicos e o conhecimento local. Essas espécies podem ser escolhidas por sua capacidade de se adaptarem ao ambiente em regeneração e promoverem a biodiversidade local.

 

5.2. Estruturação de viveiros

 

Descrição: Viabilizar infraestrutura para a produção de mudas através da implantação de viveiros para fornecimento de mudas a serem utilizadas na área.

  

5.3. Fomento à formação de redes de sementes

 

Descrição: As redes de coletores de sementes devem ser apoiadas para o fornecimento de sementes para (i) plantio direto no solo, (ii) plantio com muvuca de sementes, (iii) plantio por meio do lançamento aéreo de sementes e para utilização na produção de mudas em viveiros contribuindo para fomentar a cadeia da restauração.

Nível da prática: avançada

 

5.4. Aquisição de sementes ou mudas

 

Descrição: Após a identificação das espécies-chave, é necessária a obtenção de propágulos (sementes ou mudas) em viveiros ou redes de sementes locais.

Nível da prática: intermediária

 

5.5. Plantio direcionado em áreas de baixa densidade e baixa diversidade de espécies nativas

 

Descrição: O plantio de enriquecimento deve ser conduzido em locais onde a regeneração natural está limitada pela baixa densidade de espécies ou baixa diversidade. O plantio das espécies-chave é realizado nesses locais de modo a aumentar a diversidade e assim garantir um maior impacto ecológico.

Nível da prática: intermediária

 

5.6. Monitoramento e adaptação

 

Descrição: Após o plantio, o monitoramento deve ser conduzido para se avaliar o estabelecimento das espécies plantadas e o progresso da regeneração. A ação deve incluir a análise de crescimento, saúde e vitalidade da planta, presença de pragas ou doenças. Se necessário, devem ser conduzidas adaptações no manejo, como replantio e controle de pragas.

Nível da prática: intermediária

 

6. Controle de espécies invasoras e/ou exóticas

 

Componentes da prática

 

6.1. Mapeamento e identificação de espécies invasoras e/ou exóticas

 

Descrição: O mapeamento e identificação de espécies invasoras visa detectar e registras a presença de espécies que podem prejudicar a regeneração e estabelecimento de espécies nativas, concorrendo por recursos como água, nutrientes e luz, impedindo o crescimento das plantas desejadas e assim, alterando a estrutura e a funcionalidade do ecossistema. A correta identificação das espécies invasoras direcionará as intervenções necessárias para sua remoção.

Nível da prática: básica

 

6.2. Remoção mecânica

 

Descrição: A remoção mecânica envolve a extração física das espécies invasoras com o uso de ferramentas manuais ou maquinários.

Nível da prática: básica

 

6.3. Monitoramento da área pós-remoção

 

Descrição: Após a remoção das espécies invasoras, o monitoramento deve ser aplicado periodicamente para garantir que as plantas não voltem a colonizar o espaço e que o local progrida na regeneração natural.

Nível da prática: intermediária

 

6.4. Plantio de espécies nativas para substituição

 

Descrição: O plantio de espécies nativas nos locais da remoção das espécies invasoras garantirá o não retorno das espécies indesejadas. Deve ser realizado através da prática de enriquecimento, com o uso de sementes ou mudas adaptadas à condição da área.

 

6.5. Monitoramento

 

Descrição: Acompanhamento periódico das áreas onde as espécies invasoras foram removidas para avaliar a eficácia da intervenção e identificar a necessidade de ações corretivas, a partir de indicadores de sucesso como a ausência/presença de espécies invasoras e presença/ausência de espécies nativas regenerantes. Envolver comunidades locais no processo de monitoramento pode aumentar a capacidade de resposta rápida em caso de re-infestação. O monitoramento comunitário inclui capacitar moradores e agricultores para reconhecer e reportar a presença de espécies invasoras, ampliando o escopo de monitoramento.

Nível da prática: intermediária

 

7. Manutenção de indivíduos regenerantes

 

Componentes da prática

 

7.1. Inventário para identificação e mapeamento das espécies regenerantes

 

Descrição: O inventário tem como objetivo registrar a presença de espécies nativas que estão naturalmente regenerando, mapeando sua localização e avaliando seu estágio de crescimento. Esse levantamento fornece informações essenciais para a gestão da área e para as intervenções subsequentes, como proteção e monitoramento.

Nível da prática: básica

 

7.2. Proteção das espécies regenerantes

 

Descrição: A proteção envolve a criação de barreiras físicas ou o uso de estacas para evitar o pisoteio de animais ou a remoção acidental das plantas durante atividades de manejo. O objetivo é garantir que as plântulas e mudas nativas possam crescer sem interferências.

Nível da prática: básica

 

7.3. Controle de mato-competição

 

Descrição: O controle de mato-competição visa reduzir a concorrência entre espécies invasoras e regenerantes nativas. Isso pode ser feito através de capina manual, roçada mecânica ou aplicação de cobertura morta. A prática do coroamento, que consiste em limpar a área ao redor da base da planta regenerante, também é utilizada para evitar a competição direta por recursos como luz, água e nutrientes.

Nível da prática: básica

 

7.4. Podas de formação e condução

 

Descrição: As podas de formação e condução visam orientar o crescimento das plantas regenerantes, conduzindo o desenvolvimento de uma estrutura adequada e forte.

Nível da prática: básica

 

7.5. Monitoramento

 

Descrição: O monitoramento contínuo permite acompanhar o desenvolvimento das plantas regenerantes e identificar possíveis problemas, como pragas, doenças ou competição com outras espécies. Isso envolve visitas regulares a campo, registros de crescimento e condições ambientais, além de adaptações nas práticas de manejo quando necessário.

Nível da prática: intermediária

 

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